Excertos de Lo Zi et le Tao, de Isabelle Robinet, Bayard, 1986.
O Tao
- Como vimos, a palavra dao significa primeiramente "via método", guia de comportamento. Lao zi (ou o Daode jing) fez dela o fundamento e o Todo do mundo. Nos séculos IV-II antes de nossa era, Shen Dao, Zhuang zi e Guanzi, pensadores de tendências diversas, lhe deram um sentido muito próximo deste. No Taoísmo, embora guardando este sentido primeiro, reveste-se de um sentido metafísico, que remete a uma experiência nascida da meditação de uma "presença íntima".
- Não há especulações teóricas sobre o Tao, como no Ocidente fizeram sobre Deus. Os textos que dele tratam revestem uma coloração que evoca esta "presença-ausência", esta tranquilidade e esta solidão que se faz sentir na meditação. As vezes exaltada em termos cosmológicos ou guiada pela dialética budista da existência (you) e da não-existência (wu).
- O Tao é o fundamento último e constitucional do mundo e da vida, sua origem, a Fonte, a Raiz. Nas palavras de Zhuang zi: "O Tao é o ponto último dos seres; nem a palavra nem o silêncio podem portá-lo. Sem palavra nem silêncio, é o ponto último do debate". Um louvor interior pelo silêncio, no entanto, responde a um louvor exterior por uma multiplicação de nomes e de imagens. Todos os dois se complementam.
- Eis porque existem duas vias principais para falar do Tao como para falar de Deus: a negativa (apophasis) e a afirmativa (cataphasia). Ambas correspondem a seu aspecto duplo: a inefabilidade do Tao desconhecido e não conhecível em seu fundo absoluto, e a fecundidade do Tao cósmico. A dimensão negativa impede a redução da via taoísta a um vitalismo, ao sentimento do fluxo da vida que corre em si, que aportam as práticas da respiração. Estas são apenas exercícios, e não apreendem o fundamento último na qual elas se enraízam.
- Tao segundo sua dimensão negativa:
- Inominável
- Invisível
- Imperceptível
- Indeterminado
- Inqualificável
- Nem alto nem baixo
- Nem grande nem pequeno
- Nem claro nem opaco
- O Uno
- A Simplicidade última
- O Vazio (wu ou xu)
- Infinito
- Incriado
- Abissal
- Avesso do conhecimento que repousa sobre um fundamento ontológico; o conhecimento só pode se produzir operando objetivamente, exteriorizando seu objeto; afastando-se assim do Tao
- Só por um saber interior e unificado (sem sujeito e objeto; sem conhecedor e conhecido) o Tao pode ser vivido
- Tao, segundo sua dimensão positiva:
- A Mãe, princípio primeiro do universo de onde tudo decorre em uma lenta gestação; uma cosmogonia apresentada em modo genealógico
- A fecundidade
- O Tao como atividade cósmica e maravilhosa
- O Uno Primeiro
- Revestindo todas as formas ao mesmo tempo oculto
- Podendo ser conhecido por seus efeitos variados e mutáveis
- Em toda parte e em nenhum lugar
- Sem forma própria, é uma via, uma caminho que se faz caminhando
- Centro do mundo e de cada coisa
- Poder organizador, sem o qual nada seria
- Os seres nele vivem como os peixes na água
- Anterior ao Céu e a Terra do qual é o fundamento
- Seu caráter ontologicamente fundador é designado como a Virtude (De ou Te), no sentido latino de ação eficaz; Virtude esta, aspecto "real" do Tao, e "misteriosa" como ele; as vezes perceptível as vezes não
- Papel criador, entendida a criação nos mesmos termos de Tomas de Aquino enquanto relação atual de dependência ontológica do conjunto do mundo em relação aquilo que é o primeiro e não depende de nada mais
- Movimento e "transformação"
- Princípio de ordem, ordenador do universo que engendra e desdobra o mundo através de suas leis; religa todas as coisas entre elas, como uma grande trama
- O Uno, a uni-totalidade, o omni-englobante
- Wu e you (veja também : wu wei)
- O Tao hipostasiado, os corpos do Tao